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| The scribe Jean Mielot - C. de Hamel |
Em 2002, após as eleições do ano anterior, o novo executivo camarário começou finalmente a mexer com a renovação da aldeia histórica. Parece que além disso houve uma mudança qualitativa considerável e que a nova administração entrou finalmente no século XX. Sim, cronologicamente entrámos no século XXI, mas sejamos realistas, avisaram os amigos locais.
Trabalhos de renovação
Trabalhos de renovação
Durante uma visita à aldeia, para verificar o avanço dos trabalhos de renovação, o Albatroz e esposa tiveram a oportunidade de falar com o encarregado das obras de enterramento dos cabos de electricidade e telefone. Para grande surpresa, aperceberam-se que não estavam previstas quaisquer ligações à casa. O que é ainda mais de espantar devido ao facto de que a casa ter electricidade há mais de cinquenta anos, desde que chegou à aldeia. Mau planeamento ou a história do costume?
Contra-ordenação
Contra-ordenação
Inesperadamente, receberam uma comunicação da Câmara informando que estava em curso um processo de contra-ordenação, aparentemente com o pretexto de que não foram utilizadas no novo telhado as telhas de “canudo”, iguais às que existiam originalmente. Uma contra-ordenação?! Antes de dar largas a uma justa indignação, com considerações coléricas sobre como não era preciso que arqueólogos e antropólogos encontrassem o “menino de Lapedo” para determinar cientificamente que os Neandertal não se tinham extinguido na península ibérica, decidiram parar um pouco e recapitular:
- primeiro, a Câmara (antigo executivo) descura totalmente os interesses da povoação ao não aproveitar os fundos para a sua recuperação;
- segundo, ignorando o estado miserável em que se encontra o resto da povoação, decide implicar com aquela casa em particular;
- terceiro, têm vindo a Portugal vezes sem conta, com dificuldade e prejuízo para os seus interesses, dado que não têm todo o tempo do mundo como aqueles funcionários públicos a quem ouvem discutir futebol ou a falta de apetite do gato, enquanto eles esperam para ser atendidos nas repartições;
- quarto, a substituição do telhado foi licenciada pela Câmara;
- quinto, pagaram um dinheirão por um telhado novo, incluindo lintel e estrutura;
- sexto, o trabalho demorou meses, à vista de fiscais diversos e implicações menores;
- sétimo, agora que o trabalho está acabado, a Câmara (novo executivo) vem informar que as telhas usadas não são as apropriadas para aquela casa específica, embora se trate do mesmo tipo de telhas usadas no telhado da Junta de Freguesia e no Posto de Turismo, que estão na sua continuidade imediata da casa.
- oitavo, o mesmo tipo de telha foi usado nas casas vizinhas.
O novo executivo
O novo executivo
Decidiram então falar com o presidente da Câmara, que amavelmente os recebeu algum tempo depois para uma reunião com os serviços responsáveis. Faltava alguém na reunião, o presidente mandou chamar. O homem veio e, respondendo a uma pergunta sobre a casa em questão, respondeu que pertencia a uns emigrantes. O presidente apontou para o outro lado da mesa e disse que estavam ali. O homem enrubesceu e enfiou-se por debaixo da mesa. Figurativamente, claro... Aperceberam-se de várias coisas, a mais importante das quais foi como ia ser difícil para o novo executivo mudar os maus hábitos acumulados durante as épocas passadas. Posteriormente a contra-ordenação foi obviamente cancelada, mas a casa foi integrada no projecto de renovação da povoação e dessa forma as telhas seriam substituídas sem que os proprietários tivessem que pagar por duas vezes o mesmo trabalho.
Os bons arquitectos
Os bons arquitectos
Após as múltiplas desventuras com arquitectos, uns amigos conhecedores mas desinteressados nesta matéria, indicaram finalmente uns arquitectos com conhecimentos, ideias e capazes de ouvir o que os clientes queriam. Mandaram-lhes a documentação. Visitas à casa. Propostas e orçamentos. Avaliaram e escolheram.
Fizeram um contrato com os Arquitectos segundo rascunho duns amigos advogados. Desenhos preliminares, mais visitas à casa e anexos, mais trocas de ideias, adaptações e mudanças. Viagens e mais viagens.
Projecto de arquitectura
Finalmente o Projecto de Arquitectura foi entregue na Câmara.
Fizeram um contrato com os Arquitectos segundo rascunho duns amigos advogados. Desenhos preliminares, mais visitas à casa e anexos, mais trocas de ideias, adaptações e mudanças. Viagens e mais viagens.
Projecto de arquitectura
Finalmente o Projecto de Arquitectura foi entregue na Câmara.
Entretanto, a Associação Portuguesa de Casas Antigas queria incluir a casa num livro sobre solares, como sendo característica dos “edifícios senhoriais da Beira Baixa”. Ben, alors... Já existe um livro da associação dos arquitectos portugueses a descrever assim a casa, mais uma porção de outras publicações. Para já é indiferente, a menos que... será que isso pode facilitar alguma coisa? A luz trémula da esperança, mesmo irracional, nunca morre.
Time warp:
Passar por Portugal não é fácil, perde-se muito tempo e sai caro. O aeroporto de Lisboa não recebe nenhum dos voos de longo curso dos percursos que ele tem que fazer. Entre Lisboa e Washington é preciso passar por Nova York. Para vir a Lisboa no caminho de Tóquio é preciso passar por Paris ou Londres. Mas este belo jardim à beira mar encalhado onde nasceram merece alguns sacrifícios.
Nos US o presidente Bush usa a expressão “eixo do mal” no discurso do estado da união. O mundo inteiro recorda-se do “império do mal” de Ronald Reagan e do fim da União Soviética. Mais tarde, Bush (W) lembrará que Saddam tentou matar-lhe o pai. Em Londres os bookmakers deixam de receber apostas sobre se o Iraque será invadido ou não, recebem apostas apenas sobre a data.
As notas de Euro começam a circular. Aleluia, no arco do desenvolvimento US-Europa, apenas duas moedas, de valor mais ou menos equivalente. Na Turquia, é eleito o islamista Tayyip Erdogan. O império otomano foi uma potência europeia e a Turquia quer entrar no clube. A Turquia fica na Ásia Menor, resta-lhe agora na Europa apenas o bocado à volta de Istambul. Esse bocado é maior e mais povoado do que alguns países europeus. E agora? Honi soit qui mal y pense.
Em Angola, Jonas Savimbi perde a protecção da CIA e é morto numa emboscada perto do Moxico. O petróleo é mais importante que os diamantes. Porquê pagar a duas máfias se se pode pagar só a uma?
Timor-Leste torna-se independente da Indonésia. Um saco de gatos foi tirado das garras dum tigre manhoso e depois largado a boiar no tanque do tubarão australiano.
Os nomes que se dão às coisas.
JSR
JSR

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