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| The Pot of Gold |
Objectivos subjectivos
Qualquer obra tem uma parte objectiva e uma parte subjectiva. Restaurar uma casa com história e portanto com uma alma constituída pelas muitas vidas que lá se desenrolaram, não é obviamente o mesmo que construir um edifício novo que apenas reflecte o gosto de quem o faz e o fim a que se destina. Decidiram restituir a casa, tanto quanto possível, à traça original. Respeitar o enquadramento, através dum projecto de arquitectura austero que pusesse em valor o antigo existente, mas sem tentar substituir o que não tinha arranjo com imitações que só podem ser de mau gosto. Pensaram em si próprios também, acrescentando o conforto contemporâneo.
Ao discutirem, primeiro a possibilidade e depois a forma de restauração, decidiram que se iam fazer alguma coisa com a casa, fariam alguma coisa de qualidade. Como em todas as coisas, é preciso um ponto em que se quebre o círculo vicioso da mediocridade dominante. Se bem que o objectivo principal fosse obter uma certa satisfação pessoal em manter nesta região um património familiar com valor sentimental, não puderam ignorar que é economicamente absurdo investir num local onde o retorno desse investimento será sempre materialmente nulo, ou na melhor das hipóteses ridiculamente baixo. Havia porém, incentivos em programas para conservação do património e empreendimentos turísticos, projectos de restaurações de telhados e fachadas, tudo isto alimentado por fundos Comunitários. Tendo esses factores em conta, talvez fosse possível ser temerário sem ser idiota.
Conheciam como estas coisas tinham funcionado noutros países, e pensaram que o mesmo poderia acontecer aqui. O optimismo em relação à terra de origem paga-se caro. Pensaram poder contribuir um pouco para a dinamização da terra e da região. Por um lado, ele pensou em organizar algumas reuniões académicas ou profissionais, da mesma forma que alguns dos seus antecessores nos mesmos postos tinham organizado reuniões nos seus países de origem e por vezes nas suas casas de família. Sempre teve orgulho na austeridade das casas tradicionais do interior português. As casas reflectem o carácter de quem as fez e habitou. Por outro lado, mesmo que os participantes nas reuniões excedessem as capacidades próprias da casa, poderiam hospedar-se nos turismos de habitação da terra e nos hotéis da região.
Qualidade local
Qualidade local
Como tinham vivido e visitado outros lugares onde o património histórico tem sido restaurado desde há muito tempo, aprenderam a distinguir o bom do mau e, obviamente, preferem um trabalho bem feito. Pensaram também que seria justo dar trabalho aos profissionais locais, além de que isso poderia de alguma maneira facilitar o progresso de empreendimento. Esqueceram-se que de boas intenções está o inferno cheio. Procurar profissionais locais para fazer o trabalho de qualidade que queriam, revelou-se duma inocência só explicável pelo longo afastamento lhes ter dourado a memória e toldado as faculdades de realismo. Eles existem, mas a maioria estão emigrados...
No fim do arco-iris...
No fim do arco-iris...
Tiveram que começar pelas demolições interiores. Para a casa ser restaurada na sua traça original, era preciso retirar tudo o que era espúrio. Durante séculos tinha havido o acrescento duma parede aqui, um lugar onde fazer fogo acolá. Mas o pior foi quando parte da casa funcionou como a primeira escola da povoação. Perder toda uma ala, onde agora funcionam o posto de turismo, o posto de saúde e a junta de freguesia, é uma coisa. Uma escola é outra coisa muito diferente. Dividiram-se salões para fazer salas de aula e desapareceram os tectos abaulados de madeira. Para além da guerra, não há nada mais destrutivo que miúdos em idade escolar. A casa passou pelas duas coisas.
Encontraram um empreiteiro para fazer as demolições interiores. Passado algum tempo o homem e os seus empregados abandonaram a obra. Ficaram admirados quando souberam. O que há teria acontecido? Tentaram contactar o empreiteiro sem resultado. Começaram as especulações. Diz-se que na casa está escondido um tesouro, um pote de moedas, ou qualquer coisa desse tipo. Na altura das invasões francesas as pessoas esconderam ou enterraram tudo o que puderam. O mesmo aconteceu com os donos da casa.
A esposa do Albatroz tem uma colcha antiga de Castelo Branco com o bordado carmesim manchado, porque a colcha serviu para embrulhar valores da família que foram metidos numa ânfora e enterrados. Parece que as paredes da casa, um labirinto com um sem fim de fendas e esconderijos, serviram o mesmo objectivo. O filho, durante umas férias andou de detector de metais a vasculhar as paredes e aquilo apitava por todos os lados. Impossível ter tempo para abrir tantos buracos. Na altura das demolições o filho estava na Califórnia e eles em Paris.
Mandaram recado ao homem. Disse que só queria falar com a dona da casa. Quando vieram a Portugal lá conseguiram falar com ele. Explicou que não queria continuar com a obra, que andava doente e era demasiada responsabilidade para a sua pequena empresa. Quiseram pagar-lhe o trabalho já feito, não quis. Ficaram sem saber o que pensar ou fazer. O engenheiro de estruturas achou que o homem não compreendia este tipo de construções, tinha medo que a casa lhe caísse em cima. Para a pequena história é mais interessante imaginar que o homem encontrou um tesouro e se reformou rico.
Time warp:
2001, “annus horribilis” o ano do 9/11. Na manhã do dia 11 de Setembro, dezanove terroristas apoderaram-se de quatro aviões. Dois foram pilotados contra as torres gémeas do Word Trade Center em Nova York. Os dois outros dirigiram-se para Washington. Um atingiu o Pentágono. No outro, os passageiros atacaram os terroristas e o avião acabou por cair na Pensilvânia. Estavam em Portugal, a almoçar no restaurante da terra e aperceberam-se de que qualquer coisa estranha se passava na televisão. O choque com a primeira torre podia ser um acidente. O segundo podia ser o princípio duma guerra mundial. A filha estava a meia dúzia de quarteirões da Casa Branca. Nunca se sentiram tão longe de casa.
Algum tempo depois os US invadiram o Afeganistão, os fanáticos talibãs e da Al-Quaeda fugiram para o Paquistão. Os povos do mundo não vivem todos na mesma época. O pelotão da frente entrou no século XXI, o pelotão dos últimos ainda está mergulhado nas trevas da Idade Média.
JSR
JSR

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