Tuesday, 5 October 2010

3 - A Força da Gravidade

A NASA Picture
             Regressar ao passado, ao ponto de partida, é sempre um risco. “Quanto mais alto sobes, de mais alto cais” e outros ditados populares, reflectem o fatalismo dos circum-navegadores sem a coragem  de se agarrarem  ao outro lado do mundo, a falta de imaginação dos que se contentam com fazer uma bela viagem, como Ulisses. E que voltam para morrer ao riacho das origens, como os salmões ou as enguias.
          O apelo das origens
A propósito de riacho das origens, deve haver um apelo irresistível na ribeira que passa pela aldeia onde a esposa do Albatroz nasceu e que nasce mais acima na serra. Pressionados pelas telhas que, segundo a Câmara, ameaçavam cair sobre os passantes, em 1999 resolveram vir de propósito tratar do assunto, para contactos com os organismos responsáveis pela preservação do património arquitectónico e outros, assim como para procurar um arquitecto que fizesse o projecto de substituição do telhado.
          Le telephone arabe
          Apareceram amigos arquitectos, amigos que têm filhos arquitectos, amigos que têm amigos arquitectos. Arquitectos de renome, arquitectos inexperientes, arquitectos de Lisboa, arquitectos da província. O telefone árabe tinha funcionado e, como a casa aparece em várias publicações, entre as quais um livro da Associação dos Arquitectos Portugueses, acharam o interesse natural. Resolveram pedir propostas a alguns para poder comparar soluções e preços e voltaram para Paris.
Ao analisar as propostas tiveram algumas surpresas significativas. Houve ss que queriam fazer o projecto mas que o não podiam assinar, porque trabalhavam em exclusividade nalgum lugar. Houve os que não só não apresentaram proposta nenhuma, como já tinham esboçado as primeiras fases do projecto, corrido a falar com quem conheciam aqui e além, já vinham propor facilidades e conivências, uma estrutura do telhado em madeira de não sei quê, caríssima, para substituir o castanho que está na casa, mas depois de obter a comparticipação de não sei que mais, usa-se uma madeira mais barata, e a diferença... bem, a diferença teria servido para olear as engrenagens necessárias a um projecto destes e assim evitar os dissabores por que passaram mais tarde. Mas não, obrigado, o Albatroz não estava interessado.
          As telhas com que se está
Mais umas viagens porque, enfim, as telhas continuavam a poder cair sobre um fiscal da Câmara. Nunca se sabe como são estas coisas, isto de fiscais às vezes podem apanhar com telhas que caiem na cabeça por correspondência. Tinham mesmo que arranjar um arquitecto. Foi neste ponto que o Albatroz teve uma ideia peregrina: porque não contratar um arquitecto da região? Mais uma vez a querer contribuir para a economia local, diz-se por aqui que mordida de cão se cura com pelo do próprio cão. Depressa se apercebeu que o ditado popular é tão estúpido quanto tinha sido a ideia.
          A criatura
Procuraram nomes de arquitectos da região. Pediram propostas e orçamentos. Receberam mais orçamentos de arquitectos do que aqueles a quem tinham pedido. Lá escolheram um. Não conheciam a criatura, que foi escolhida apenas por ser da região onde se encontra a casa e ter eventualmente melhor conhecimento das condições locais e dos passos necessários para aprovação de projectos. Fizeram um contrato. Mas nem sempre o que parece é. Acabaram por perceber tarde demais que alguns arquitectos são piores do que os desenhadores com ligações à Câmara, que esses ao menos propuseram os seus serviços salientando logo a importância dos seus patronos para que tudo corresse bem.
Praticamente desde o início das relações contratuais, a criatura demonstrou falta de responsabilidade profissional: não cumpria os prazos estabelecidos, não chegava a horas ou faltava às reuniões marcadas, esquecia os assuntos discutidos nas sessões de trabalho. Além do mais, sabia que eles viviam fora do país, que todas as mudanças de calendário causavam prejuízos pessoais e profissionais. Começou por pedir mais um levantamento, porque o existente tinha sido feito “à fita”, o tal. Tinha que ser feito por um topógrafo com quem trabalhava, para que os dados entrassem logo em computador. E para ganhar tempo. Pagaram ao topógrafo. Mas depois o levantamento revelou-se incompleto e mal feito. Mais tempo que passa.
Foram-se apercebendo da falta de capacidade da criatura em responder aos desejos dos clientes com propostas tecnicamente válidas e adaptadas à situação. Demonstrou também falta de conhecimentos, experiência, bom gosto e sensibilidade para resolver os problemas postos por um edifício antigo. Insistia em mudar a forma do telhado. Os desenhos estavam a ser feitos por computador e é evidente que é difícil fazer encaixar um telhado de linhas regulares num edifício composto pela agregação de casas de vários séculos sucessivos. Mas a maior surpresa foi a insistência no disparate, mesmo tratando-se duma aldeia histórica com todas as suas condicionantes e apesar de vários empreiteiros terem garantido que o telhado poderia ser refeito com a forma original. Como posteriormente foi feito e assim está até hoje.
Do pouco e mal que propôs no projecto abortado, tudo era entregue tarde e a más horas, de forma a que nada pudesse ser verificado para saber se estava de acordo com o que era necessário, ou conforme ao que tinha sido pedido. Chegou ao extremo de não querer entregar os últimos elementos de cada fase sem que o trabalho fosse pago adiantadamente, pois sabia que esses elementos não teriam a aprovação dos clientes e não poderiam ser aceites pelas entidades destinatárias respectivas, dado que os prazos eram muito curtos. Um comportamento que não se conforma com o mínimo de ética, deontologia ou responsabilidade profissionais. Finalmente, tiveram mesmo que despedir a criatura e anular tudo o que já tinha sido submetido.
Mas a criatura era uma carraça. Não devia ter muito que arquitectar e daquilo que arquitectava, a qualidade era tal que uma das vítimas lhe tinha feito ameaças de morte, segundo confissão própria. Queria que lhe pagassem a totalidade do trabalho contratado, embora o pouco que foi feito tivesse ido direito para o lixo. Como já tinham feito vários pagamentos, acharam que chegava como contribuição para as boas obras, embora a diferença fosse pouca e se a criatura não fosse da família dos caprídeos teriam chegado rapidamente a um acordo igual ao que mais tarde seria decidido por um juiz. Fair enough, deviam ter despedido a criatura mais cedo.
Exit a criatura? Ainda não. Mais tarde, quando o telhado foi finalmente substituído numa forma em tudo semelhante ao original, com todas as aprovações necessárias, em vez de reconhecer a sua incompetência e meter a língua no saco, foi intrigar junto das organizações de protecção do património. De tal modo a ignorância é contagiosa que uma delas acabou por emitir um “parecer” extemporâneo e néscio, sem consultar a abundante documentação existente sobre as características e história da casa, ou sequer a sua própria lista na internet. Depois deste assunto arrumado, mais uma vez procurar arquitectos. Começar de novo, com novo projecto. Desta vez procuraram em Lisboa.
          Há de tudo
Entretanto tinham também feito conhecimento com uns advogados locais. Mais uma vez a inocência de acreditar na tal história da mordedura do cão e do pêlo do cão. Com os mesmos resultados, por vezes burlescos. Como quando num dia de audiência, durante o processo da criatura, encontraram por acaso num restaurante o homenzinho baixote que lhes tinham recomendado como advogado, a almoçar com o advogado da criatura. Curioso, sem mais. Mas o estranho foi que o baixote não devia ter a consciência tranquila, pois se pôs em bicos de pés como uma galinha da Índia, numa crise de histeria, a tentar justificar isto e aquilo. Exit baixote. Após outra tentativa falhada, acabaram por escolher um advogado de Lisboa, sempre fica mais perto do aeroporto.
          Time warp:
Durante 1999, o Albatroz vinha bater por eclipses contra os moinhos de vento das serranias do interior. Entretanto, a Alemanha reunificada mudava a capital de Bona novamente para Berlim. A  ideia da unificação europeia avançava com o estabelecimento dum Banco Central e do Euro como moeda comum.
O Presidente Clinton escapava ao impeachment no julgamento pelo Senado.
Os timorenses referendavam a independência e os indonésios destruíam tudo o que tinham construído desde a anexação de Timor-Leste. As milícias matavam tudo o que mexesse e não fugisse a tempo.
          JSR

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