Monday, 20 September 2010

1 - A Queda das Nuvens

Sunset at Sea
O albatroz (o maior dos pássaros marinhos, da família Diomedeidae - os companheiros de Diomedes) pertence aos horizontes sem fim, aos ventos alíseos e às ondas do grande largo. Nos tempos anteriores à descoberta do mundo, chamavam à sua espécie “os pássaros sem pés”, aqueles que viviam nas nuvens. Faziam parte das mitologias ancestrais, das criaturas imaginárias das terras e mares desconhecidos.
          O ponto fraco 
Na realidade, o albatroz volta à terra onde nasceu uma vez por ano, na época da reprodução, mesmo assim em muitos lugares estão em vias de extinção. Preparado para os grandes espaços, morre se for posto em cativeiro, como o poeta maldito de Baudelaire: “exilé sur le sol… ses ailes de géant l'empêchent de marcher”. A gaiola até pode ser dourada, mesmo os lendários pássaros sem pés acabavam por cair das nuvens, mas a adaptação é improvável.
          A gaiola
Era uma vez um Albatroz que costumava ser avistado sobretudo nos ventos ascendentes a partir de Washington, ou Tóquio, ou Paris, e daí para o resto do mundo. Pousa agora de vez em quando na “gaiola” duma pequena povoação no interior montanhoso dum pais encalhado à beira do Atlântico. Para mais, afastou-se da costa, coisa nunca vista. Como é que isso aconteceu? A explicação está no ponto fraco dos albatrozes, a tal vinda a terra uma vez por ano... 
Tudo começou há muito tempo, quando o Albatroz voltou pela primeira vez ao país onde nasceu e onde mais tarde, na capital, conheceu a sua futura esposa. Que então ainda não o era, obviamente, mas estava a considerar ser. Porque os albatrozes são uns passarões fiéis nas suas ligações, ela queria que o Albatroz conhecesse os pais e também a terra onde nasceu. Essas viagens deviam fazer parte dos seus ritos de passagem. 
Soube então que “era” duma cidade do interior. Ninguém é perfeito. Depois ficou também a saber que tinha nascido numa aldeia histórica, quer dizer conservada no estado medieval. Chama-se como?... Ninguém tem culpa do lugar onde nasceu, mesmo que seja longe das principais rotas da civilização. Detalhe sem grande importância, pensou. Só muito mais tarde se apercebeu de como estava errado. 
          Baby boomers coming of age
Era a passagem da década de sessenta para a de setenta do século vinte, a sociedade continuava beata e paspalhona, o país estava em fim de reino e havia cada vez mais dificuldade em respirar o ar parado. Após os encontros e desencontros habituais, em três anos casaram, fizeram dois filhos e partiram, primeiro para Paris e depois para o mundo. 
Foi nessa época que se começou a impor a geração nascida no fim da guerra, the baby boom generation, que cresceu num tempo de grandes transformações, de desenvolvimento económico, de maior acesso à educação, de progresso dos transportes, de liberalização da informação, de internacionalização politica e empresarial. Uma geração que rejeitava os valores tradicionais e criou a sua própria cultura, que acreditava num novo Renascimento durante o qual o mundo só podia melhorar com a passagem do tempo. 
          A tribo dos albatrozes
Onde houvesse acção, encontravam-se os membros da movida planetária. Chamavam-lhes a “tribo dos albatrozes”. Nasceram num país, cresceram noutros, estudaram nas universidades dos USA e Europa, falavam naturalmente vários idiomas e desprezavam preconceitos e ideologias. Trabalhavam em organizações internacionais, nas empresas multi-nacionais, na diplomacia e na intelligence, nos media e nos negócios (alguns cinzentos, de onde por vezes emergia uma Fénix metamorfoseada em grande financeiro e filantropo). A tribo, que era então ainda pouco numerosa, reconhecia-se nas lounges dos aeroportos, nos bares de alguns hotéis, nas preparações de certos congressos, nas reuniões antes das reuniões, nas negociações discretas, nos “acontecimentos”... e nas histórias que contavam. 
Uma dessas histórias é um bom exemplo do tempo e do modo de então: 
“Sabes quais são as diferenças entre o paraíso e o inferno? 
- No paraíso tens um salário americano, uma casa inglesa, uma mulher japonesa, um carro alemão, uma amante francesa e um cozinheiro chinês. 
- No inferno tens um salário chinês, uma casa japonesa, uma mulher americana, um carro francês, uma amante alemã e um cozinheiro inglês... “
          Crash landing 
Passaram muitos anos de longos voos, mas agora, a insistência da esposa, o Albatroz é um terrestre periódico e mesmo assim sempre relutante. Nunca se pensa que o casamento possa ser um boomerang. Por mais longe que se vá, acabamos por nos encontrar novamente a dois e é difícil resistir quando um sente o apelo das raízes tão forte como a força de gravidade. A literatura está cheia de exemplos das dificuldades de voltar à pátria, do desespero dos desencontros, das evoluções opostas, dos silêncios da incompreensão. 
Depois de conhecer os ventos para todas as latitudes e longitudes, ocupado com projectos, negociações, conferências, organizações e universidades, para um albatroz passar muito tempo na capital ou a fortiori nas montanhas longe da costa, significa não encontrar lugar onde arrumar as asas. 
Para mais, ter que assistir com desespero às manobras politicas caseiras e ao desmoronar anunciado da economia, enfrentar burocracias indecisas e querelas de campanário, é purgatório suficiente para ganhar o céu das religiões, se existisse.
          O reverso da medalha 
Mas toda a medalha tem o seu reverso. Mesmo os albatrozes têm família e alguns amigos que mostram contentamento com o reencontro. Ao voltar descobrem novas gerações em geral mais preparadas, uma parte da classe universitária com craveira internacional, alguns empresários capazes de prosperar sem relações incestuosas com o Estado, uma certa qualidade de vida que se descobre com paciência. Aprende-se a deixar de ouvir os papagaios mediáticos, a ignorar o lixo físico e mental que nos rodeia, a aguardar com calma que o BCE e o FMI a seu tempo obriguem quem governa a que sejam feitas as reformas que não conseguiram fazer na hora própria. 
Depois, há a companhia de gente inteligente, que tem preparação e sabe do que fala, com quem se pode conversar e discutir. Após o que sobra sempre a interrogação de saber porque razão não são estes que tomam as rédeas do Estado. Vasta questão. 
Finalmente, com as novas auto-estradas o aeroporto está sempre perto, just a reassurance no caso de se tornar demasiado doloroso quando as asas começarem a atrofiar.
          JSR

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