Saturday, 27 November 2010

8 - Empreiteiros e empreitadas

Gods of Time - Andres Orlowski
2004 foi o ano do começo de duas empreitadas na casa, uma adjudicada pela Câmara  como parte da renovação dos telhados e fachadas na povoação, e outra adjudicada mais tarde pelo Albatroz e esposa para a restauração total da casa. Duas empreitadas que deviam ser consecutivas, primeiro a da Câmara e depois a outra, mas que acabaram por se sobrepor com todos os problemas consequentes.
A meio do ano receberam uma carta muito confusa da Câmara, a misturar o primeiro pedido de licença para substituição do telhado com o segundo pedido para reconstrução total da casa. Após o Protocolo assinado para renovação dos telhados e fachadas, continuam à espera que essas obras sejam adjudicadas. Mais uma carta à Câmara, as obras interiores não podem avançar enquanto não forem feitos os trabalhos exteriores.
Os acasos dos deuses
Finalmente, após muitos atrasos, a Câmara lá adjudicou as obras de recuperação dos telhados e fachadas a um empreiteiro. At long last... e então o que decidem os deuses? O empreiteiro faleceu. E agora? O que acontece nestes casos? Muito simples, a empreitada foi aparentemente herdada por um cunhado. Mistérios e surpresas da burocracia. Por outro lado, sem que tivessem perguntado nada, vieram dizer que era do pior que se podia encontrar. O futuro imediato confirmou a informação e a “gentileza” que lhes tinha sido feita.
A escolha certa?
Na segunda metade do ano, foram pedidos orçamentos para as obras interiores, feita a análise dos Orçamentos com os Arquitectos, o engenheiro de estruturas e um fiscal. Descartaram o mais caro, por ter possivelmente exagerado nos preços. Descartaram o mais barato, porque era óbvio que não tinha compreendido o projecto. Escolhemos o que acharam melhor, uma proposta de um empreiteiro no meio. Foi posteriormente pedido o Alvará de Licença de Obras interiores, o qual foi em devido tempo deferido pela Câmara.
Pára, arranca...
Entretanto, receberam uma carta do Instituto de Turismo, a candidatura foi aprovada.
As obras exteriores da casa estão paradas, os atrasos da empreitada adjudicada pela Câmara não deixam programar as obras interiores. Mais outra carta à Câmara, as obras interiores têm necessariamente que ser articuladas com as obras exteriores. Voltam a lembrar que os compromissos assumidos com o Fundo de Turismo e que a montagem financeira deixa já a cargo dos proprietários um investimento demasiado avultado para o valor intrínseco do imóvel e a sua localização. Se os atrasos da adjudicação da Câmara persistirem, este projecto, que já não tem qualquer interesse económico para os proprietários, deixará também de ter interesse sentimental.
Time warp:
O responsável pelo programa de armamento nuclear do Paquistão confessou que desde 1989 vendeu a tecnologia à Líbia, à Coreia do Norte e ao Irão.
A 11 de Março os terroristas islâmicos rebentam bombas no metro de Madrid, causando a maior carnificina desde a última guerra civil. O governo de Asnar primeiro acusa a ETA, depois sabe-se quem foram os responsáveis e Asnar perde as eleições, os espanhóis sucumbem a um ataque de cobardia e mandam regressar as tropas do Iraque. Da próxima vez que os terroristas quiserem fazer chantagem, já sabem que resulta em Espanha (e em França, e onde mais na Europa?). Mas não resulta em Inglaterra e nos Estados Unidos.
No Sudão, as milícias árabes continuam o genocídio dos negros animistas e cristãos, tendo despovoado com a ajuda da força aérea uma zona tão grande como a península Ibérica.
Dois veículos espaciais da NASA largam robots em Marte, os quais começam a explorar a superfície do planeta, a enviar fotografias e outra informação científica.
Durante quanto tempo poderão coexistir no nosso pequeno planeta, estes diferentes espécimes de homo sapiens, em estádios tão diferentes da sua evolução?
JSR

Saturday, 20 November 2010

7 – Uma Ronda das Capelinhas

Gates
Em 2003, o Projecto de Arquitectura, cujo processo fora entregue na Câmara no ano anterior, tinha sido enviado por esta pelo menos às seguintes entidades, pedindo pareceres: CCR, IPPAR, Bombeiros, Ministério da Economia, Desenvolvimento Rural, Região de Turismo, DRAOT. Que ninguém pergunte o significado destas siglas exotéricas, é preciso ter uma fé cega para não desesperar da razão... Tudo em triplicado, mais 5 cópias.
          CCR
Nesta altura apareceram problemas inesperados com a CCR, que envia à Câmara uma carta recheada de erros sobre a história da Casa, os elementos originais, o estado em que se encontrava antes da substituição do telhado e depois desta. Erros evitáveis com uma simples consulta na internet ao inventário do património arquitectónico (IPA), um contacto com os arquitectos ou com os donos. Discordavam com a cobertura e as telhas, as colunas e o alpendre, a janela de canto e até as portas.
É evidente que a CCR não cometeria tais erros sem razão. Não foi difícil descobrir que as objecções mencionadas na carta resultavam duma denúncia com informações falsas. Até aí, nada de surpreendente. O que é extraordinário, é que um organismo público respeitável e competente desse seguimento sem se dar ao trabalho de verificar os factos. Lá foi necessário escrever mais uma carta, explicando os erros e pedindo uma reunião. Quando a reunião teve lugar, os quadros responsáveis, que entretanto tinham mudado, explicaram que a CCR tinha ultrapassado as suas competências e que já tinham preparado nova carta à  Câmara, aprovando o projecto.
          IPPAR
O IPPAR foi informado da resposta ao primeiro parecer da CCR, da reunião e subsequente carta enviada por essa mesma instituição à Câmara, dando um parecer positivo sobre a restauração da casa. O pedido de alteração do edifício foi aprovado condicionalmente pelo IPPAR. A condicionalidade tinha a ver com um despacho de 1981 sobre a eventual classificação da povoação como aldeia histórica. Parece que este capítulo de intrigas e despeitos parece ter sido ultrapassado. Mas a saga continua.
          Saúde?
Muito, muito tempo após e quando finalmente todas as respostas pareciam ter sido recebidas, numa visita a um responsável pelo urbanismo na Câmara este disse que ainda faltava o parecer da Direcção Geral de Saúde. Da Direcção Geral de Saúde?! Para uma licença de obras? Saúde do quê, das pedras e barrotes centenários? As pedras de granito devem estar evidentemente cheias de osteoporose, os barrotes têm algum reumático e se calhar as portas e janelas sofrem de Alzheimer avançado. O Albatroz pediu para ver o decreto regulador dessas trapalhadas. Claro que, numa pesquisa demorada à documentação, não havia menção de Direcção Geral de Saúde. Hum... home free, at last. Mas só por agora.
           Câmara
Visto que a Câmara, ou o coordenador do programa das aldeias históricas ou quem quer que seja, não gosta das telhas que foram usadas no telhado novo da casa, que ponham outras telhas eles próprios. Decisão para a qual nunca haverá arrependimento suficiente. Mas enfim, foi assinado com a Câmara um Protocolo de Cooperação para a recuperação de telhados e fachadas, ao abrigo do programa de recuperação das aldeias históricas. Allea jacta est e tudo isso. O que pode dar para o torto, dá de certeza.
O primeiro problema foi logo a necessidade de coordenar obras exteriores (da Câmara) e as interiores (da responsabilidade dos donos).
          ITP
Com a estimativa do custo total do projecto de restauração da casa a crescer para valores cada vez mais absurdos em relação à localização e ao objectivo, decidiram concorrer aos subsídios do ITP - Instituto de Turismo de Portugal. Foram recebidos de braços abertos, com a maior simpatia e colaboração. Pelos vistos, correspondiam ao perfil e metas dos programas de investimento existentes.
Mas a papelada, as propostas, as projecções, a informática, um estudo financeiro. A papelada inevitável. Em princípio. Excepto quando é preciso obedecer a regras dum sistema informático ultrapassado que não funciona no sistema operacional da Apple. Apareceu uma economista que garantiu ter já preparado várias candidaturas. Be my guest. É preferível pagar a alguém saiba fazer o necessário, do que sofrer a tentação de, em vez de preparar uma candidatura, preparar um projecto de simplificação e reforma dos programas de incentivos ao turismo.
Pode ser optimismo, inocência ou falta de atenção, mas entre alguém pretender que sabe e efectivamente saber, vai a distância do soft spot que se tem sempre para com os compatriotas, quando se vive muito tempo fora. Mas o certo é que a candidatura não andava, e o ping-pong entre a economista e o ITP se eternizava. Finalmente compraram um PC, com alguma dificuldade encontraram e instalaram o software apropriado e com a ajuda do departamento de análise e acompanhamento ao investimento (DAAI) lá entregaram a candidatura.
O projecto destinava-se a recuperar e a adaptar, para turismo da habitação, um solar de traça arquitectónica típica de edifício senhorial do séc. XVI que se situa numa aldeia histórica. Extracto em língua dos arquitectos: na recuperação, que manterá a sua traça arquitectónica original, ... alia-se a arquitectura contemporânea, que dá a possibilidade de utilizar materiais e formas construtivas diferenciadas as quais vão reforçar o seu carácter, estabelecendo contrastes e texturas, mas com o objectivo de não por em causa a unidade do conjunto... será introduzido não só todo o conforto dos nossos dias mas também as novas tecnologias...
Estes factos levaram a que as entidades intervenientes nas diversas autorizações dessem o seu parecer favorável à efectivação deste projecto ... Benefícios para a comunidade local… elevado potencial turístico ... desportos de Inverno, rotas BTT, passeios pedestres, centros de equitação, caça, festivais internacionais de folclore, restaurantes, cinemas e teatros, centros de pesquisas arqueológicas, centros de ensino superior... um público nacional e internacional culto que procura acima de tudo um turismo cultural  de qualidade...
          Os filhos
Os filhos achavam o projecto de restauração da casa muito interessante, apoiam totalmente e gostam de vir cá. De vez em quando, claro, quando as suas ocupações o permitem. Sem o apoio deles, nem valia a pena meterem-se no projecto. Há certas coisas que, como o arsénico, são suportáveis em pequenas doses. Muito pequenas, senão matam. Mas as doses que os Albatrozes têm que suportar são muito maiores e muito mais frequentes.
E então o seu próprio carpe diem?
Time Warp:
Em 2003, os Americanos e Ingleses invadem o Iraque e tomam Bagdade. As televisões mostram a biblioteca e o museu a serem saqueados por bandos de bárbaros, estranhamente rápidos, organizados e metódicos, que roubam tudo o que podem. Tesouros arqueológicos que datam dos primórdios da civilização, há cinco, seis e sete milénios.
É descoberto um gang dedicado a vender conhecimentos e materiais destinados ao fabrico de armas nucleares, chefiado pelo cientista responsável pelo armamento nuclear do Paquistão. As escolas corânicas neste país, subsidiadas pelo dinheiro do petróleo, continuam a encher as cabeças das crianças de ódio ao Ocidente e produzem futuros terroristas de mentalidade medieval, em vez de lhes proporcionar os conhecimentos contemporâneos necessários para a sua vida numa sociedade civilizada.
Durante este ano foram retirados do serviço os aviões Concorde, deixando saudades dos voos entre Paris e Nova York em três horas. Quando voltará isto a ser possível?
De volta da estação espacial, o shuttle Columbia explodiu ao reentrar na atmosfera, morrendo a tripulação de sete astronautas. Para que a evolução da espécie humana se faça para melhor, fazem mais falta os genes destas sete pessoas que os de todos os terroristas e outros extremistas do mundo.
          JSR

Thursday, 11 November 2010

6 - O Percurso do Combatente

The scribe Jean Mielot - C. de Hamel
Em 2002, após as eleições do ano anterior, o novo executivo camarário começou finalmente a mexer com a renovação da aldeia histórica. Parece que além disso houve uma mudança qualitativa considerável e que a nova administração entrou finalmente no século XX. Sim, cronologicamente entrámos no século XXI, mas sejamos realistas, avisaram os amigos locais.
            Trabalhos de renovação
Durante uma visita à aldeia, para verificar o avanço dos trabalhos de renovação, o Albatroz e esposa tiveram a oportunidade de falar com o encarregado das obras de enterramento dos cabos de electricidade e telefone. Para grande surpresa, aperceberam-se que não estavam previstas quaisquer ligações à casa. O que é ainda mais de espantar devido ao facto de que a casa ter electricidade há mais de cinquenta anos, desde que chegou à aldeia. Mau planeamento ou a história do costume?
            Contra-ordenação
Inesperadamente, receberam uma comunicação da Câmara informando que estava em curso um processo de contra-ordenação, aparentemente com o pretexto de que não foram utilizadas no novo telhado as telhas de “canudo”, iguais às que existiam originalmente. Uma contra-ordenação?! Antes de dar largas a uma justa indignação, com considerações coléricas sobre como não era preciso que arqueólogos e antropólogos encontrassem o “menino de Lapedo” para determinar cientificamente que os Neandertal não se tinham extinguido na península ibérica, decidiram parar um pouco e recapitular:
- primeiro, a Câmara (antigo executivo) descura totalmente os interesses da povoação ao não aproveitar os fundos para a sua recuperação;
- segundo, ignorando o estado miserável em que se encontra o resto da povoação, decide implicar com aquela casa em particular;
- terceiro, têm vindo a Portugal vezes sem conta, com dificuldade e prejuízo para os seus interesses, dado que não têm todo o tempo do mundo como aqueles funcionários públicos a quem ouvem discutir futebol ou a falta de apetite do gato, enquanto eles esperam para ser atendidos nas repartições;
- quarto, a substituição do telhado foi licenciada pela Câmara;
- quinto, pagaram um dinheirão por um telhado novo, incluindo lintel e estrutura;
- sexto, o trabalho demorou meses, à vista de fiscais diversos e implicações menores;
- sétimo, agora que o trabalho está acabado, a Câmara (novo executivo) vem informar que as telhas usadas não são as apropriadas para aquela casa específica, embora se trate do mesmo tipo de telhas usadas no telhado da Junta de Freguesia e no Posto de Turismo, que estão na sua continuidade imediata da casa.
- oitavo, o mesmo tipo de telha foi usado nas casas vizinhas.
            O novo executivo
Decidiram então falar com o presidente da Câmara, que amavelmente os recebeu algum tempo depois para uma reunião com os serviços responsáveis. Faltava alguém na reunião, o presidente mandou chamar. O homem veio e, respondendo a uma pergunta sobre a casa em questão, respondeu que pertencia a uns emigrantes. O presidente apontou para o outro lado da mesa e disse que estavam ali. O homem enrubesceu e enfiou-se por debaixo da mesa. Figurativamente, claro... Aperceberam-se de várias coisas, a mais importante das quais foi como ia ser difícil para o novo executivo mudar os maus hábitos acumulados durante as épocas passadas. Posteriormente a contra-ordenação foi obviamente cancelada, mas a casa foi integrada no projecto de renovação da povoação e dessa forma as telhas seriam substituídas sem que os proprietários tivessem que pagar por duas vezes o mesmo trabalho.
            Os bons arquitectos
Após as múltiplas desventuras com arquitectos, uns amigos conhecedores mas desinteressados nesta matéria, indicaram finalmente uns arquitectos com conhecimentos, ideias e capazes de ouvir o que os clientes queriam. Mandaram-lhes a documentação. Visitas à casa. Propostas e orçamentos. Avaliaram e escolheram. 
Fizeram um contrato com os Arquitectos segundo rascunho duns amigos advogados. Desenhos preliminares, mais visitas à casa e anexos, mais trocas de ideias, adaptações e mudanças. Viagens e mais viagens.
            Projecto de arquitectura 
Finalmente o Projecto de Arquitectura foi entregue na Câmara.    
Entretanto, a Associação Portuguesa de Casas Antigas queria incluir a casa num livro sobre solares, como sendo característica dos “edifícios senhoriais da Beira Baixa”. Ben, alors... Já existe um livro da associação dos arquitectos portugueses a descrever assim a casa, mais uma porção de outras publicações. Para já é indiferente, a menos que... será que isso pode facilitar alguma coisa? A luz trémula da esperança, mesmo irracional, nunca morre.
Time warp:
Passar por Portugal não é fácil, perde-se muito tempo e sai caro. O aeroporto de Lisboa não recebe nenhum dos voos de longo curso dos percursos que ele tem que fazer. Entre Lisboa e Washington é preciso passar por Nova York. Para vir a Lisboa no caminho de Tóquio é preciso passar por Paris ou Londres. Mas este belo jardim à beira mar encalhado onde nasceram merece alguns sacrifícios.
Nos US o presidente Bush usa a expressão “eixo do mal” no discurso do estado da união. O mundo inteiro recorda-se do “império do mal” de Ronald Reagan e do fim da União Soviética. Mais tarde, Bush (W) lembrará que Saddam tentou matar-lhe o pai. Em Londres os bookmakers deixam de receber apostas sobre se o Iraque será invadido ou não, recebem apostas apenas sobre a data.
As notas de Euro começam a circular. Aleluia, no arco do desenvolvimento US-Europa, apenas duas moedas, de valor mais ou menos equivalente. Na Turquia, é eleito o islamista Tayyip Erdogan. O império otomano foi uma potência europeia e a Turquia quer entrar no clube. A Turquia fica na Ásia Menor, resta-lhe agora na Europa apenas o bocado à volta de Istambul. Esse bocado é maior e mais povoado do que alguns países europeus. E agora? Honi soit qui mal y pense.
Em Angola, Jonas Savimbi perde a protecção da CIA e é morto numa emboscada perto do Moxico. O petróleo é mais importante que os diamantes. Porquê pagar a duas máfias se se pode pagar só a uma?
Timor-Leste torna-se independente da Indonésia. Um saco de gatos foi tirado das garras dum tigre manhoso e depois largado a boiar no tanque do tubarão australiano.
Os nomes que se dão às coisas.
            JSR